sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete


Achei muito interessante esse texto extraído do livro “O Arroz de Palma”, de Francisco Azevedo e queria muito compartilhar com vocês.



“Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema…Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir…Mas a vida… sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente…Já estão aí? Todos? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza. Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa. Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto: é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte.

As vezes o ídolo da família, o bonzinho, o bola cheia que sempre ajudou azedou a comida só porque meteu a colher. O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Família é afinidade, é à Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito. Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.

Como entender o Apocalipse?


“O Apocalipse oferece uma imagem do que é a vida do cristão e a vida da Igreja: uma realidade ao mesmo tempo da terra e do céu, do tempo e da eternidade”

A interpretação do Apocalipse requer critérios precisos deduzidos deste gênero literário. A palavra grega “apokálypsis” quer dizer revelação. O Apocalipse quer incutir nos leitores uma confiança inabalável na Providência Divina em tempos difíceis para os cristãos. Não vamos aqui analisar os simbolismos dos números, animais, aves, monstros, etc..

No fim do século I era cada vez mais difícil a situação dos cristãos no Império Romano por causa da terrível perseguição pelos imperadores romanos. Tudo começou com Nero, no ano 64, e São João escreveu estando exilado na ilha de Patmos, no mar Egeu, na terrível perseguição de Domiciano (81-96). Muitos cristãos desanimados, abandonavam a fé (apostasia) e aderiam às prática pagãs. Foi em tais circunstâncias sombrias que São João escreveu o Apocalipse.

O livro visava encorajar os fiéis. O Apocalipse é, basicamente, “o livro da esperança cristã” ou da confiança inabalável no Senhor Jesus e nas suas promessas de vitória. Ele quer anunciar a “vitória do Bem sobre o mal”, do reino de Cristo sobre o reino do Mal.

Nem todo o livro do Apocalipse está redigido em estilo apocalíptico. Compreende duas partes anunciadas em Ap 1,19-3,22: revisão de vida das sete comunidades da Ásia Menor às quais São João escreve em estilo sapiencial e pastoral; 4,1-22,15: as coisas que devem acontecer depois. Esta é a parte apocalíptica propriamente dita para a qual se volta a nossa atenção: 4,1-5,14: a corte celeste, com sua liturgia. O Cordeiro “de pé, como que imolado” (5,6), recebe em suas mãos o livro da história da humanidade. Tudo o que acontece no mundo está sob o domínio do Senhor, que é o Rei dos séculos. A parte apocalíptica do livro se abre com uma grandiosa cena de paz e segurança; qualquer quadro de desgraça está subordinado a isso.

O núcleo central do sentido do Apocalipse apresenta, sob forma de símbolos, a luta entre Cristo e Satanás, luta que é o eixo de toda a história. Os sete selos revelam esta luta. A seguir, de 17,1 a 22,17, após os três septenários, ocorre a queda dos agentes do mal: 17,1-19,10: a queda de Babilônia (símbolo da Roma pagã); 19,11-21: a queda das duas Bestas que regem Babilônia (o poder imperial pagão e a religião oficial do império); 20,1-15: a queda do Dragão, instigador do mal.

A seção final (21,1-22,15) mostra a Jerusalém celeste, Esposa do Cordeiro o oposto da Babilônia pervertida. Os versículos 22,16-21 constituem o epílogo do livro.

Em resumo, as calamidades que o Apocalipse apresenta a se desencadear sobre o mundo, não podem ser interpretadas ao pé da letra. Unindo as aflições na terra e alegria no céu, quer dizer aos seus leitores que as tribulações desta vida estão de acordo com a Sabedoria de Deus; foram cuidadosamente previstas pelo Senhor, dentro de um plano harmonioso, onde nada escapa, embora não entendamos.

Ao padecer as aflições da vida cotidiana, os cristãos não devem desanimar. Foi uma forma de consolo que o Apocalipse queria incutir aos seus leitores; não só do século I, mas de todos os tempos da história; isto é, os acontecimentos que nos atingem aqui na terra fazem parte da luta vitoriosa do Bem sobre o mal; é a prolongação da obra do Cordeiro que foi imolado, mas atualmente reina sobre o mundo com as suas chagas glorificadas (cf. c.5). Os cristãos na terra gemem, mas os bem-aventurados na glória cantam aleluia.

No céu os justos não se desesperam com que acontece com os que sofrem na terra; antes, continuam a cantar jubilosamente a Deus porque percebem o sentido das nossas tribulações. O Apocalipse quer mostrar que essa mesma paz do céu deve ser também a dos cristãos na terra, porque, embora vivam no mundo presente, já possuem em suas almas a eternidade e o céu em forma de semente, pela graça santificante, que é a semente da glória celeste.

Assim o Apocalipse oferece uma imagem do que é a vida do cristão e a vida da Igreja: uma realidade ao mesmo tempo da terra e do céu, do tempo e da eternidade. A vida do cristão é celeste, deve ser tranquila, como a vida dos justos que no céu possuem em plenitude aquilo mesmo que os cristãos possuem na terra em gérmen.

A sua mensagem básica do Apocalipse é esta: as desgraças da vida presente, por mais aterradoras que pareçam, estão sujeitas ao sábio plano da Providência Divina, a qual tudo “faz concorrer para o bem daqueles que O amam” (Rm 8,28).

Prof. Felipe Aquino

http://cleofas.com.br/como-entender-o-apocalipse/

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Imaculada Conceição de Maria


Maria esmaga a serpente


O surpreendente dia em que o próprio diabo foi obrigado a louvar a Imaculada Conceição de Maria
Durante um exorcismo na Itália em 1823, dois sacerdotes dominicanos fizeram o diabo reconhecer o dogma que seria promulgado 30 anos depois


8 de dezembro de 1854: o papa Pio IX promulga o dogma da Imaculada Conceição de Maria.

25 de março de 1858: na festa da Encarnação do Verbo, a Santíssima Virgem aparece em Lourdes para Santa Bernadete e confirma o dogma dizendo: “Eu sou a Imaculada Conceição”.

Mais de trinta anos antes, porém, outro fato sobrenatural e surpreendente confirmou a Imaculada Conceição da Virgem Mãe de Deus. E quem a confessou foi alguém que jamais esperaríamos que o fizesse.

Era o ano de 1823. O diabo tinha possuído um jovem analfabeto de apenas 12 anos de idade, residente na atual província italiana de Avellino, na região da Apúlia. Estavam na cidade dois religiosos dominicanos, o pe. Gassiti e o pe. Pignataro, ambos autorizados pelo bispo a realizarexorcismos.

Os sacerdotes fizeram uma série de perguntas ao diabo que possuía o garoto e, entre elas, uma foi sobre a Imaculada Conceição.

O diabo confessou que a Virgem de Nazaré jamais tinha estado sob seu poder: nem mesmo no primeiro instante de sua vida, pois ela já foi concebida “cheia de graça” e toda de Deus.

Embora seja o “pai da mentira”, o diabo pode ser obrigado no exorcismo a dizer a verdade, inclusive em matéria de fé. Foi assim que os dois sacerdotes exorcistas o obrigaram a reverenciar Nossa Senhora e a louvar a sua Conceição Imaculada na forma de versos.

Humilhado, o diabo se viu forçado em nome de Cristo a cantar a glória de Maria mediante um soneto em italiano, perfeito em construção e em teologia!

Reproduzimos o original italiano e, em seguida, a tradução ao português:

Em italiano:

Vera Madre son Io d’un Dio che è Figlio
e son figlia di Lui, benché sua Madre;
ab aeterno nacqu’Egli ed è mio Figlio,
in tempo Io nacqui e pur gli sono Madre.

Egli è mio creator ed è mio Figlio,
son Io sua creatura e gli son Madre;
fu prodigo divin l’esser mio Figlio
un Dio eterno, e Me d’aver per Madre.

L’esser quasi è comun tra Madre e Figlio
perché l’esser dal Figlio ebbe la Madre,
e l’esser dalla Madre ebbe anche il Figlio.

Or, se l’esser dal Figlio ebbe la Madre,
o s’ha da dir che fu macchiato il Figlio,
o senza macchia s’ha da dir la Madre.

Em português:

Sou verdadeira mãe de um Deus que é Filho,
E sou sua filha, ainda ao ser sua mãe;
Ele de eterno existe e é meu Filho,
E eu nasci no tempo e sou sua mãe.

Ele é meu Criador e é meu Filho,
E eu sou sua criatura e sua mãe;
Foi divinal prodígio ser meu Filho
Um Deus eterno e ter a mim por mãe.

O ser da mãe é quase o ser do Filho,
Visto que o Filho deu o ser à mãe
E foi a mãe que deu o ser ao Filho;

Se, pois, do Filho teve o ser a mãe,
Ou há de se dizer manchado o Filho
Ou se dirá Imaculada a mãe.

http://pt.aleteia.org/2015/12/15/o-surpreendente-dia-em-que-o-proprio-diabo-foi-obrigado-a-louvar-a-imaculada-conceicao-de-maria/

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A Igreja Católica: Construtora da Civilização (Completo e Legendado)

A Oração


A oração é necessária para a vida espiritual: é a respiração que permite que a vida do espírito se desenvolva, e atualiza a fé na presença de Deus e de seu amor.


1. O que é a oração [1]


Em português conta-se com dois vocábulos para designar a relação consciente e coloquial do homem com Deus: prece e oração. A palavra “prece" provem do verbo latino precor, que significa rogar, ir a alguém solicitando um benefício. O termo “oração" provem do substantivo latino oratio, que significa fala, discurso, linguagem.

As definições que se dão da oração costumam refletir estas diferenças de matiz que acabamos de encontrar ao aludir à terminologia. Por exemplo, São João Damasceno, considera-a como «a elevação da alma a Deus e a petição de bens convenientes»[2]; enquanto para São João Clímaco trata-se mais de uma «conversa familiar e união do homem com Deus»[3].

A oração é absolutamente necessária para a vida espiritual. É como a respiração que permite que a vida do espírito se desenvolva. Na oração atualiza-se a fé na presença de Deus e de seu amor. Fomenta-se a esperança que leva a orientar a vida para Ele e a confiar em sua providência. E se engrandece o coração ao responder com o próprio amor ao Amor divino.

Na oração, a alma, conduzida pelo Espírito Santo a partir do mais fundo de si mesma (cfr. Catecismo, 2562), une-se a Cristo, mestre, modelo e caminho de toda oração cristã (cfr. Catecismo, 2599 ss.), e com Cristo, por Cristo e em Cristo, dirige-se a Deus Pai, participando da riqueza do viver trinitário (cfr. Catecismo, 2559-2564). Daí a importância que na vida de oração tem a Liturgia e, em seu centro, a Eucaristia.

2. Conteúdos da oração


Os conteúdos da oração, como os de todo diálogo de amor, podem ser múltiplos e variados. Cabe, no entanto, destacar alguns especialmente significativos:

Petição.

É frequente a referência à oração impetratória ao longo de toda a Sagrada Escritura; também nos lábios de Jesus, que não só vai a ela, mas que convida a pedir, encarecendo o valor e a importância de uma prece singela e confiada. A tradição cristã reiterou esse convite, pondo-a em prática de muitas maneiras: petição de perdão, petição pela própria salvação e pela dos demais, petição pela Igreja e pelo apostolado, petição pelas mais variadas necessidades, etc.

De fato, a oração de petição faz parte da experiência religiosa universal. O reconhecimento, ainda que em ocasiões difusas, da realidade de Deus (ou mais genericamente de um ser superior), provoca a tendência a dirigir-se a Ele, solicitando sua proteção e sua ajuda. Certamente a oração não se esgota na prece, mas a petição é manifestação decisiva da oração assim como reconhecimento e expressão da condição criada do ser humano e de sua dependência absoluta de um Deus cujo amor a fé nos dá conhecer de maneira plena (cfr. Catecismo, 2629.2635).

Ação de graças.

O reconhecimento dos bens recebidos e, através deles, da magnificência e misericórdia divinas, impulsiona a dirigir o espírito a Deus para proclamar e lhe agradecer seus benefícios. A atitude de ação de graças cheia desde o princípio até o fim a Sagrada Escritura e a história da espiritualidade. Uma e outra põem de manifesto que, quando essa atitude arraiga na alma, dá lugar a um processo que leva a reconhecer como dom divino todos os acontecimentos, não somente aquelas realidades que a experiência imediata acredita como gratificantes, mas também as aparentemente negativas ou adversas.

Consciente de que o acontecer está situado sob o desígnio amoroso de Deus, o fiel sabe que tudo redunda no bem de quem –a cada homem– é objeto do amor divino (cfr. Rm 8, 28). « Habitua-te a elevar o coração a Deus em ação de graças, muitas vezes ao dia. - Porque te dá isto e aquilo. - Porque te desprezaram. - Porque não tens o que precisas, ou porque o tens. Porque fez tão formosa a sua Mãe, que é também tua Mãe. - Porque criou o Sol e a Lua e este animal e aquela planta. - Porque fez aquele homem eloquente e a ti te fez difícil de palavra... Dá-Lhe graças por tudo, porque tudo é bom. »[4].

Adoração e louvor.

É parte essencial da oração, reconhecer e proclamar a grandeza de Deus, a plenitude de seu ser, a infinitude de sua bondade e de seu amor. Ao louvor pode-se desembocar a partir da consideração da beleza e magnitude do universo, como acontece em múltiplos textos bíblicos (cfr., por exemplo, Sal 19; Se 42, 15-25; Dn 3, 32-90) e em numerosas orações da tradição cristã[5]; ou a partir das obras grandes e maravilhosas que Deus opera na história da salvação, como ocorre no Magnificat (Lc1, 46-55) ou nos grandes hinos paulinos (ver, por exemplo, Ef 1, 3-14); ou de fatos pequenos e inclusive miúdos nos que se manifesta o amor de Deus.

Em todo caso, o que caracteriza o louvor é que nele o olhar vai diretamente a Deus mesmo, tal e como é em si, em sua perfeição ilimitada e infinita. «O louvor é a forma de oração que reconhece o mais imediata­mente possível que Deus é Deus! Canta-o pelo que Ele mes­mo é, dá-lhe glória, mais do que pelo que Ele faz, por aquilo que Ele É » (Catecismo, 2639). Está, por isso, intimamente unida à adoração, ao reconhecimento, não só intelectual, mas existencial, da pequenez de tudo criado em comparação com o Criador e, em consequência, à humildade, à aceitação da indignidade pessoal ante quem nos transcende até o infinito; à maravilha que causa o fato de que esse Deus, ao que os anjos e o universo inteiro rendem homenagem, se dignou não só a fixar seu olhar no homem, mas habitar no homem; mais ainda, a se encarnar.

Adoração, louvor, petição, ação de graças resumem as disposições de fundo que informam a totalidade do diálogo entre o homem e Deus. Seja qual for o conteúdo concreto da oração, quem reza o faz sempre, de uma forma ou de outra, explícita ou implicitamente, adorando, louvando, suplicando, implorando ou dando graças a esse Deus ao qual reverencia, ao qual ama e no qual confia. Importa reiterar, ao mesmo tempo, que os conteúdos concretos da oração poderão ser muito variados. Em ocasiões se irá à oração para considerar passagens da Escritura, para aprofundar em alguma verdade cristã, para reviver a vida de Cristo, para sentir a proximidade de Santa Maria... Em outras, iniciará a partir da própria vida para participar a Deus das alegrias e os afãs, dos sonhos e os problemas que o existir comporta; ou para encontrar apoio ou consolo; ou para examinar ante Deus o próprio comportamento e chegar a propósitos e decisões; ou mais singelamente para comentar com quem sabemos que nos ama as incidências da jornada.

Encontro entre o que crê e Deus em quem se apóia e pelo que se sabe amado, a oração pode versar sobre a totalidade das incidências que conformam o existir, e sobre a totalidade dos sentimentos que pode experimentar o coração. « Escreveste-me: “Orar é falar com Deus. Mas de quê?" - De quê? DEle e de ti: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias..., fraquezas!; e ações de graças e pedidos; e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te - ganhar intimidade!"»[6]. Seguindo uma e outra via, a oração será sempre um encontro íntimo e filial entre o homem e Deus, que fomentará o sentido da proximidade divina e conduzirá a viver a cada dia da existência de cara a Deus.

3. Expressões ou formas da oração

Atendendo aos modos ou formas de manifestar-se a oração, os autores costumam oferecer diversas distinções: oração vocal e oração mental; oração pública e oração privada; oração predominantemente intelectual ou reflexiva e oração afetiva; oração regrada e oração espontânea, etc. Em outras ocasiões os autores tentam esboçar uma gradação na intensidade da oração, distinguindo entre oração mental, oração afetiva, oração de quietude, contemplação, oração unitiva...

O Catecismo estrutura sua exposição distinguindo entre: oração vocal, meditação e oração de contemplação. As três «tem um traço fundamental comum: o recolhimento do coração. Esta atenção em guardar a Palavra e permanecer na presença de Deus faz destas três expressões tempos fortes da vida de oração» (Catecismo, 2699). Uma análise do texto evidencia, pelo contexto, que o Catecismo ao empregar essa terminologia não faz referência a três graus da vida de oração, mas duas vias: a oração vocal e a meditação, apresentando ambas como aptas para conduzir a esse cume na vida de oração que é a contemplação. Em nossa exposição nos ateremos a este esquema.

Oração vocal

A expressão “oração vocal" aponta a uma oração que se expressa vocalmente, isto é, mediante palavras articuladas ou pronunciadas. Esta primeira aproximação, ainda sendo exata, não vai ao fundo do assunto. Pois, por um lado, todo dialogar interior, ainda que possa ser qualificado como exclusiva ou predominantemente mental, faz referência, no ser humano, à linguagem; e, em ocasiões, à linguagem articulada em voz alta, também na intimidade da própria estância. Por outro lado, deve-se afirmar que a oração vocal não é assunto só de palavras, mas sobretudo de pensamento e de coração. Daí que seja mais exato sustentar que a oração vocal é a que se faz utilizando fórmulas pré-estabelecidas tanto longas como breves (jaculatórias), tomadas da Sagrada Escritura (o Pai Nosso, ou a Ave Maria...), ou tomadas da tradição espiritual (o Veni Sancte Spiritus, a Salve, o Lembrai-vos...).

Tudo isso, como é óbvio, com a condição de que as expressões ou fórmulas recitadas vocalmente sejam verdadeira oração, isto é, que cumpram com o requisito de que quem as recita o faça não só com a boca mas com a mente e o coração. Se essa devoção faltasse, se não tivesse consciência de quem é Aquele a que a oração se dirige, de que é o que na oração se diz e de quem é aquele que a diz, então, como afirma com expressão gráfica Santa Teresa de Jesus, não se pode falar propriamente de oração «ainda que muito se mexam os lábios»[7].

A oração vocal possui um papel decisivo na pedagogia da prece, sobretudo no início do relacionamento com Deus. De fato, mediante a aprendizagem do sinal da Cruz e de orações vocais o menino, e com frequência também o adulto, se introduz na vivência concreta da fé e, portanto, da vida de oração. Não obstante, o papel e a importância da oração vocal não está limitada aos começos do diálogo com Deus, mas está chamada a acompanhar a vida espiritual durante todo seu desenvolvimento.

A meditação

Meditar significa aplicar o pensamento à consideração de uma realidade ou de uma ideia com o desejo de conhecê-la e compreendê-la com maior profundidade e perfeição. Para um cristão, a meditação – à que com frequência se designa também oração mental – implica orientar o pensamento para Deus tal e como se revelou ao longo da história de Israel e definitiva e plenamente em Cristo. E, desde Deus, dirigir o olhar à própria existência para valorizá-la e acomodar ao mistério de vida, comunhão e amor que Deus deu a conhecer.

A meditação pode desenvolver-se de forma espontânea, por motivo dos momentos de silêncio que acompanham ou seguem às celebrações litúrgicas ou a raiz da leitura de algum texto bíblico ou de uma passagem de algum autor espiritual. Em outros momentos pode concretizar-se mediante a dedicação de tempos especificamente destinados a isso. Em todo caso, é óbvio que – especialmente nos princípios, mas não só então – implica esforço, desejo de aprofundar no conhecimento de Deus e de sua vontade, e no empenho pessoal efetivo com vistas à melhora da vida cristã. Nesse sentido, pode afirmar-se que «a meditação é, sobretudo, uma busca» (Catecismo, 2705); contudo convém acrescentar que se trata não da busca de algo, mas de Alguém. Ao que tende a meditação cristã não é só, nem primariamente, a compreender algo (em última instância, a entender o modo de proceder e de se manifestar de Deus), mas se encontrar com Ele e, o encontrando, identificar com sua vontade e se unir a Ele.

A oração contemplativa

O desenvolvimento da experiência cristã, e, nela e com ela, o da oração, conduzem a uma comunicação entre o crente e Deus, a cada vez mais continuada, mais pessoal e mais íntima. Nesse horizonte situa-se a oração à que o Catecismo qualifica de contemplativa, que é fruto de um crescimento na vivência teologal do que flui um vivo sentido da cercania amorosa de Deus; em consequência, o relacionamento com Ele se faz a cada vez mais direto, familiar e confiado, e inclusive, para além das palavras e do pensamento reflexo, se chega a viver de fato em íntima comunhão com Ele.

«Que é esta oração?», interroga-se o Catecismo ao começo da parte dedicada à oração contemplativa, para responder em seguida afirmando, com palavras tomadas de Santa Teresa de Jesus, que não é outra coisa «senão tratar de amizade, estando muitas vezes tratando a sós, com Quem sabemos que nos ama»[8]. A expressão oração contemplativa, tal e como a empregam o Catecismo e outros muitos escritos anteriores e posteriores, remete, pois ao que cabe qualificar como o ápice da contemplação; isto é, o momento no qual, por ação da graça, o espírito é conduzido até a ombreira do divino transcendendo toda outra realidade. Mas também, e mais amplamente, a um crescimento vivo e sentido da presença de Deus e do desejo de uma profunda comunhão com Ele. E isso seja nos tempos dedicados especialmente à oração, seja no conjunto do existir. A oração está, em suma, chamada a envolver à inteira pessoa humana – inteligência, vontade e sentimentos –, chegando ao centro do coração para mudar suas disposições, a informar toda a vida do cristão, fazendo dele outro Cristo (cfr. Ga 2,20).

4. Condições e características da oração


A oração, como todo ato plenamente pessoal, requer atenção e intenção, consciência da presença de Deus e diálogo efetivo e sincero com Ele. Condição para que tudo isso seja possível é o recolhimento. O vocábulo recolhimento significa a ação pela qual a vontade, em virtude da capacidade de domínio sobre o conjunto das forças que integram a natureza humana, tenta moderar a tendência à dispersão, promovendo dessa forma o sossego e a serenidade interiores. Esta atitude é essencial nos momentos dedicados especialmente à oração, cortando com outras tarefas e tentando evitar as distrações. Mas não tem de ficar limitada a esses tempos: mas que deve se estender, até chegar ao recolhimento habitual, que se identifica com uma fé e um amor que, enchendo o coração, levam a tentar viver a totalidade das ações em referência a Deus, já seja expressa ou implicitamente.

Outra das condições da oração é a confiança. Sem uma confiança plena em Deus e em seu amor, não terá oração, ao menos oração sincera e capaz de superar as provas e dificuldades. Não se trata só da confiança em que uma determinada petição seja atendida, senão da segurança que se tem em quem sabemos que nos ama e nos compreende, e ante quem se pode, portanto, abrir sem reservas o próprio coração (cfr. Catecismo, 2734-2741).

Em ocasiões, a oração é diálogo que brota facilmente, inclusive acompanhado de gozo e consolo, desde o fundo da alma; mas em outros momentos – talvez com mais frequência – pode reclamar decisão e empenho. Pode então insinuar-se o desalento que leva a pensar que o tempo dedicado ao trato com Deus carece sentido (cfr.Catecismo, n. 2728). Nestes momentos, põe-se de manifesto a importância de outra das qualidades da oração: a perseverança. A razão de ser da oração não é a obtenção de benefícios, nem a busca de satisfações, complacências ou consolos, mas a comunhão com Deus; daí a necessidade e o valor da perseverança na oração, que é sempre, com fôlego e gozo ou sem eles, um encontro vivo com Deus (cfr. Catecismo, 2742-2745, 2746-2751).

Um traço específico, e fundamental, da oração cristã é seu caráter trinitário. Fruto da ação do Espírito Santo que, infundindo e estimulando a fé, a esperança e o amor, leva a crescer na presença de Deus, até se saber ao mesmo tempo na terra, na que se vive e trabalha, e no céu, presente pela graça no próprio coração[9]. O cristão que vive de fé, se vê convidado a tratar aos anjos e aos Santos, a Santa Maria e, de modo especial, a Cristo, Filho de Deus encarnado, em cuja humanidade percebe a divindade de sua pessoa. E, seguindo esse caminho, a reconhecer a realidade de Deus Pai e de seu infinito amor, e a entrar a cada vez com mais profundidade em um trato confiado com Ele.

A oração cristã é por isso e de modo eminente uma oração filial. A oração de um filho que, em todo momento – na alegria e na dor, no trabalho e no descanso – se dirige com singeleza e sinceridade a seu Pai para colocar em suas mãos os afazeres e sentimentos que experimenta no próprio coração, com a segurança de encontrar nele entendimento e acolhida. Mais ainda, um amor no que tudo encontra sentido.

José Luis Illanes

Bibliografía básica

Catecismo da Igreja Católica, 2558-2758.

Leituras recomendadas


São Josemaria, Homilias O triunfo de Cristo na humildade; A Eucaristia, mistério de fé e amor; A Ascensão do Senhor aos céus; O Grande Desconhecido e Por Maria, para Jesus, em É Cristo que passa, 12-21, 83-94, 117-126, 127-138 e 139-149; Homilias O trato com Deus; Vida de oração e Rumo à santidade, em Amigos de Deus, 142-153, 238-257, 294-316.

J. Echevarría, Itinerarios de vida espiritual, Planeta, Barcelona 2001, pp. 99-114.

J.L. Illanes, Tratado de teología espiritual, Eunsa, Pamplona 2007, pp. 427-483.

M. Belda, Guiados pelo Espírito de Deus. Curso de Teología Espiritual, Palavra, Madri 2006, pp. 301-338.

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[1] A Igreja professa sua Fé no Símbolo dos Apóstolos (Primeira parte destes guias). Celebra o Mistério, isto é, a realidade de Deus e de seu amor à que nos abre a fé, na Liturgia sacramental (Segunda parte). Como fruto dessa celebração do Mistério os fiéis recebem uma vida nova que lhes leva a viver de acordo com a condição de filhos de Deus (Terceira parte). Essa comunicação ao homem da vida divina reclama ser recebida e vivida em atitude de relação pessoal com Deus: esta relação expressa-se, desenvolve e potência na oração (Quarta parte).

[2] São João Damasceno, De fide orthodoxa, III, 24; PG 94,1090.

[3] São João Clímaco, Scala paradisi, grau28; PG 88, 1129.

[4] São Josemaria, Caminho, 268.

[5] Remetemos a dois das mais claras e conhecidas: os “Louvores ao Deus Altíssimo" e o “Cântico do irmão sol" de São Francisco de Assis.

[6] São Josemaria, Caminho, 91.

[7] Santa Teresa de Jesus, Primeiras Moradas, c. 1, 7, em Obras completas, ed. de Efrén da Mãe de Deus e Ou. Steggink, Madri 1967, p. 366.

[8] Santa Teresa de Jesus, Livro da vida, c. 8, n. 5, em Obras completas, p. 50; cfr. Catecismo, 2709.

[9] Cfr. São Josemaria, Questões Atuais do Cristianismo, 116.

fonte: http://opusdei.org.br/pt-br/article/tema-39-a-oracao/

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O caso Galileu - ciência e fé incompatíveis?

Por Vittorio Messori

Voltaire

Um dos pais do racionalismo iluminista, e, portanto, um dos autores da “lenda negra” sobre Galileu, é Voltaire, o mesmo que qualificara de charlatães os primeiros estudiosos de geologia, que sustentavam, com razão, a origem marinha dos fósseis encontrados nas escavações. O“filósofo das luzes” rechaçava aquelas “fábulas próprias de padres”, ao assegurar, todo solene, que se tratavam de pequenas conchas perdidas pelos peregrinos que seguiam o caminho de Santiago de Compostela…

Quando os discípulos de Voltaire chegaram ao poder, guilhotinaram, no dia 08 de maio de 1794, um homem de cinquenta anos: Antoine Laurent Lavoisier. Ou seja, a maior personalidade científica da França, e, provavelmente, da Europa, o fundador da química moderna, o descobridor da fórmula da água, autor do novo sistema de pesos e medidas. Lavoisier solicitou ao juiz que o condenava à morte, um adiamento de 15 dias na sua execução, para poder finalizar uma importante investigação que estava levando a cabo. “A República não tem necessidade de cientistas!” respondeu-lhe o “jacobino ilustrado”, apontando-lhe o caminho do patíbulo.

Seria esse um caso isolado? E o que dizer então de Condorcet, também condenado à morte na época do Terror, ele que era um grande cientista e matemático, mas que se tornou culpado por ser “girondino”, ou seja, não suficientemente radical na luta contra o “obscurantismo”?

O caso Galileu foi idealizado contra a Igreja, primeiro pelo liberalismo burguês (da Revolução Francesa) e depois pelo marxismo. Durante décadas, gerações de “progressistas” assistiram entre comovidas e indignadas, às representações de “Galileu Galilei”, o drama de Bertold Brecht.
Bertold Brecht

É uma lástima, no entanto, que ninguém nunca se lembre de que o autor daquela “denúncia” recebeu o Prêmio Stalin das mãos do próprio ditador em Moscou, e que a versão definitiva daquela obra foi representada, em 1957, naquela“capital dos direitos humanos e da liberdade de pensamento” que era Berlim Oriental. E que, no frigir dos ovos, foi encenada às expensas daquele “Estado democrático”alemão que pagava a Brecht todos os gastos de seu teatro, o Berliner Ensemble, que contava com centenas de empregados.

Esses são os púlpitos que nos admoestam com críticas raivosas e lições de“tolerância cívica”!

Mas, continuando com o Galileu da História e não o da lenda: ele foi convocado (não ficou nem por uma hora no cárcere) diante do tribunal, mas não por causa de suas afirmações. Tem que ser dito que a teoria“Heliocêntrica” (o Sol como centro, contrapondo-se à teoria “Geocêntrica”, a Terra como centro) de Copérnico, um fervoroso padre polonês, que tinha o seu observatório na torre de uma catedral, que dedicou sua principal obra ao Papa Paulo III, colega “astrônomo”, e que obteve sem problemas oimprimatur dos censores da Igreja, era defendida por Papas e Cardeais, como investigadores particulares, e era discutida com toda a tranquilidade nas próprias universidades pontifícias.
Galileu Galilei

O próprio Galileu, que morreu aos 78 anos, na sua cama, em uma esplêndida vila, com as bênçãos pontifícias e murmurando como últimas palavras os nomes de Jesus e de Maria, era membro da Academia Pontifícia de Ciências. Havia chegado aos 70 anos sem nenhum tipo de problema com as autoridades eclesiásticas, entre as quais se contavam como fieis admiradores e poderosos protetores, vários Bispos e Cardeais. Apenas uma vez (e só essa vez) recomendaram que tivesse prudência; uma advertência em nome do rigor e da seriedade científicos.

A guerra foi declarada por seus colegas laicos da não menos laica Universidade de Pádua. Também o perseguia, sobretudo, a ameaçadora hostilidade do biblismo protestante. Em Roma, durante e depois do processo, ficou alojado nos palácios pontifícios e cardinalícios; se fosse nas cidades da Reforma, terminaria na fogueira ou, no mínimo, no cárcere. O próprio Lutero proferiu palavras raivosas contra Copérnico, aquele “padre amigo de padres” que afirmava coisas que contradiziam a Escritura.

E Melanchton, o principal teólogo do frade rebelde, ao considerar os católicos demasiadamente tolerantes, lançou essa ameaça: “Entre nós, semelhantes fantasias sacrílegas não teriam permanecido impunes”. Quando a notícia da condenação de Galileu chegou a Tübingen, a Universidade bastião e luminária do pensamento protestante, os professores celebraram com uma grande festa e (por uma vez) se viu os luteranos congraçarem-se com os católicos… Recordo isso para chamar a atenção a propósito de determinadas tribunas para as quais o catolicismo, e apenas ele, é a “Grande Besta do Apocalipse que oprime a liberdade dos Filhos de Deus”.

As desventuras de Galileu em Roma foram relativas: retirar-se a sua vila e recitar uma vez por semana os sete salmos penitenciais, podendo, contudo, continuar com seu trabalho; e de fato, sua maior obra foi escrita depois dessa condenação. Tais desventuras não lhe recaíram por suas afirmações, mas pela maneira que as fez, com uma espécie de fideísmo dogmático, pela soberba de tentar ser ele mesmo um “enviado do Verbo” de uma ciência que continuava sendo hipotética.

Pretendia mesclar conhecimentos derivados da observação da natureza com a teologia, e construir um dogma científico para o que até então era simplesmente uma hipótese, sem provas experimentais. A única “prova”científica que Galileu levou ao processo, em quatro dias de discussão, a ocorrência das marés como originadas pelo movimento da Terra, estava errada, já que tinham razão os juízes ao atribuir o ascenso e descenso das águas marinhas à atração da lua. Não por acaso, o filósofo moderno Karl Popper desaprovou a atitude de Galileu ao ver nela a origem da nova, e muito perigosa, como em breve seria comprovado, “religião da ciência”: o“cientificismo”.
Karl Raimund Popper

Ademais, Roberto Belarmino, o sapientíssimo e santo Cardeal que lhe protegia, assim como muitos Papas e Bispos, ao tentar defendê-lo sobretudo de si mesmo, de sua teimosia (e também de seus intentos de desvirtuar os fatos que acabaram por lhe indispor com os juízes), havia adotado na ocasião uma esclarecedora expressão. A mesma que outro Cardeal e também notável investigador, Cesare Baronio, utilizou para sintetizar a postura católica diante da nascente ciência moderna: “A Bíblia não pretende ensinar-nos como se move o céu, mas como se chega até ele”.

A própria existência das monumentais “Summae” medievais (que não eram apenas obras teológicas mas, com frequência, autênticas enciclopédias de todo o saber conhecido), demonstra que a Igreja nunca se deixou levar pela tentação de estabelecer um antagonismo entre a investigação (em todos os campos) e a religiosidade. Sempre ensinou que tanto a fé quanto a razão são um dom de Deus, e, em consequência, nunca pode haver oposição entre elas.

A segurança do cristão está no fato de o Deus da Revelação ser também o Deus da Criação, por consequência, das ciências naturais, enquanto um estudo das maravilhas da Sabedoria divina. São, de alguma maneira, atos de culto e motivos de reflexão religiosa. Essa é também a razão porque as obras de matemática e geometria dos sábios da antiguidade (Euclides, o primeiro deles) chegaram até nós, copiadas com entusiamo pelos monges medievais e mais tarde, quando foi possível, impressas e difundidas por outros religiosos. E é também por isso que na época de Galileu, havia na Europa 108 universidades, uma criação característica dos católicos medievais, algumas na América espanhola, mas nenhuma nas terras não cristãs.

(Texto extraído do livro “Algunas Razones Para Creer”.)

(Veja também os demais artigos da Coleção Igreja Hoje.)

(Curta a página Vittorio Messori em português.)
fonte: https://medium.com/igreja-hoje/o-caso-galileu-584419805a43

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O que é o pecado contra o Espírito Santo?

Por Prof. Felipe Aquino


Algumas pessoas nos perguntam o que é este pecado.
Antes de tudo é preciso entender que não é um pecado como os demais; isto é, um ato: roubar, matar, prostituir, adulterar, corromper, mentir, etc.
Trata-se de uma ofensa grave ao próprio Deus na Pessoa do Espírito Santo. De que forma?
No §1864 o Catecismo da Igreja explica:
“Aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não terá remissão para sempre. Pelo contrário, é culpado de um pecado eterno” (Mc 3,29). A misericórdia de Deus não tem limites, mas quem se recusa deliberadamente a acolher a misericórdia de Deus pelo arrependimento, rejeita o perdão de seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo. Semelhante endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna”.
Portanto, o pecado contra o Espírito Santo é o endurecimento do coração. Não que a misericórdia de Deus seja insuficiente para amolecer esse coração empedernido, mas é a pessoa que não se abre para acolher o perdão e a misericórdia de Deus. É o caso do pecador que não se arrepende dos seus pecados, mesmo tendo consciência deles, sabendo que está errado e agindo deliberadamente contra a vontade de Deus.
Os Evangelhos nos mostram alguns casos de pessoas que endureceram o coração diante de Jesus, mesmo vendo seus estupendos milagres, deliberadamente não quiseram dar-lhe crédito, e preferiram tramar a sua morte, por conveniência e por inveja.
Um caso marcante é o que São João conta sobre a ressurreição de Lázaro de Betânia. Este ressuscitado era a prova cabal da divindade de Jesus; um milagre realizado bem perto de Jerusalém, e que muitos judeus presenciaram.
Muitos deles creram em Jesus, como conta S. João:
“Muitos dos judeus, que tinham vindo a Marta e Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele”. (Jo 11,45)
Mas algumas autoridades judaicas, ao invés de ceder às evidências do milagre, por conveniência, para manter seu “status-quo”, preferiram tramar a morte do Senhor. Diz S. João:
“Alguns deles, porém, foram aos fariseus e lhes contaram o que Jesus realizara. Os pontífices e os fariseus convocaram o conselho e disseram: Que faremos? Esse homem multiplica os milagres. Se o deixarmos proceder assim, todos crerão nele, e os romanos virão e arruinarão a nossa cidade e toda a nação… E desde aquele momento resolveram tirar-lhe a vida”. (Jo 11, 47s)
E o mais interessante é que as autoridades judaicas procuravam também tirar a vida de Lázaro por que ele era a prova do milagre de Jesus.
“Uma grande multidão de judeus veio a saber que Jesus lá estava; e chegou, não somente por causa de Jesus, mas ainda para ver Lázaro, que ele ressuscitara.   Mas os príncipes dos sacerdotes resolveram tirar a vida também a Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus” (Jo 12, 9-11).
Este me parece um caso típico de endurecimento do coração e pecado contra o Espírito Santo.
Outro modo de atentar contra o Espírito Santo é se desesperar da própria salvação, achando que o seu pecado é tão grande que a misericórdia de Deus já não o pode perdoar. É o pecado da desesperança. Qualquer pecado por pior que seja pode ser perdoado por Deus se a pessoa se arrepende verdadeiramente.
Um belo exemplo disso é São Pedro; depois de negar o Mestre, tristemente, por três vezes, se arrependeu, chorou amargamente, e acreditou no perdão e na misericórdia de Deus. Judas, ao contrário, se desesperou e foi se matar. Ambos pecaram gravemente, mas um se desesperou e o outro confiou no perdão de Deus.
O nosso belo Catecismo diz que:
“Não há pecado algum, por mais grave que seja, que a Santa Igreja não possa perdoar. “Não existe ninguém, por mau e culpado que seja, que não deva esperar com segurança a seu perdão, desde que seu arrependimento seja sincero.” Cristo que morreu por todos os homens, quer que, em sua Igreja, as portas do perdão estejam sempre abertas a todo aquele que recua do pecado”. (§982)
Portanto, ninguém pode se desesperar da própria salvação, mesmo que tenha pecado gravemente e de muitas maneiras. O Coração Sagrado de Jesus está sempre aberto para nos dar a sua misericórdia quando voltamos a ele arrependidos como o filho pródigo.
 Prof. Felipe Aquino
*Autoriza-se a publicação desde que cite a fonte
fonte: http://cleofas.com.br/o-que-e-o-pecado-contra-o-espirito-santo-2/

sábado, 2 de agosto de 2014

De onde vieram os quatros símbolos dos Evangelhos?


Como foram atribuídos os símbolos dos quatro Evangelhos? A arte cristã sempre representou cada evangelista por um ser vivente: São Mateus é simbolizado por um homem; São Marcos, por um leão; São Lucas, por um touro; e São João, por uma águia.
O fundamento desses ícones é bíblico. O livro do Apocalipse de São João, por exemplo, traz a visão de quatro seres viventes que rendiam glória a Deus:
“O primeiro animal vivo assemelhava-se a um leão; o segundo, a um touro; o terceiro tinha um rosto como o de um homem; e o quarto era semelhante a uma águia em pleno voo. (...) Não cessavam de clamar dia e noite: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Dominador, o que é, o que era e o que deve voltar.” [1]
Os mesmos quatro animais estão em outra visão do profeta Ezequiel:
“Distinguia-se no centro a imagem de quatro seres que aparentavam possuir forma humana. (...) Quanto ao aspecto de seus rostos tinham todos eles figura humana, todos os quatro uma face de leão pela direita, todos os quatro uma face de touro pela esquerda, e todos os quatro uma face de águia.” [2]
Mas, afinal, por que esses quatro animais foram identificados com os evangelistas? O primeiro autor cristão a utilizar essa analogia foi Santo Irineu de Lião [3], seguido por Santo Agostinho [4]. Os dois, no entanto, associaram os animais aos evangelistas de forma diferente da que se usa hoje, posto que a ordem dos Evangelhos, no começo da Igreja, ainda não estava bem definida.
Foi São Jerônimo quem começou a tratar os evangelistas da forma como são tratados hoje. São Gregório Magno explica com clareza por que referenda a sua atribuição:
“Que na verdade estes quatro animais alados simbolizam os quatro santos evangelistas, é o que demonstra o próprio início de cada um destes livros dos evangelhos. Mateus é corretamente simbolizado pelo homem porque ele inicia com a geração humana; Marcos é corretamente simbolizado pelo leão, porque inicia com o clamor no deserto; Lucas é bem simbolizado pelo bezerro, porque começa com o sacrifício; João é simbolizado adequadamente pela águia, porque começa com a divindade do Verbo, dizendo: ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus’ (Jo 1, 1), e assim tem em vista a substância divina, fixando o olhar no sol à maneira de uma águia.”
Na mesma homilia, o Papa e doutor da Igreja vai ainda mais fundo na meditação da profecia de Ezequiel:
“Mas, já que todos os eleitos são membros do nosso Redentor e o próprio nosso Redentor é a cabeça de todos os eleitos, através daquilo que simboliza os seus membros nada impede que neles todos ele também seja simbolizado. Assim, o próprio Filho Unigênito de Deus se fez verdadeiramente homem; ele se dignou morrer como bezerro como sacrifício de nossas redenção; ele, pelo poder de sua força, ressuscitou como leão.”
“Conta-se que o leão dorme até mesmo de olhos abertos, assim, o nosso Redentor pela sua humanidade pôde dormir na própria morte, e pela sua divindade ficou acordado permanecendo imortal. Ele também depois de sua ressurreição subindo aos céus, foi elevado às alturas como uma águia. “
“Portanto, ele é inteiramente para nós, seja nascendo como homem, seja morrendo como bezerro, seja ressuscitando como leão, seja subindo aos céus como águia.”
“Mas, (...), estes animais simbolizam os quatro evangelistas e ao mesmo tempo, através deles, todos as pessoas perfeitas. Falta-nos então demonstrar como cada um dos eleitos se encontram nesta visão dos animais.”
“De fato, cada pessoa eleita e perfeita no caminho de Deus é seja homem, seja bezerro, seja leão, seja águia. De fato o homem é um animal racional. O bezerro é o que se costuma oferecer em sacrifício. O leão é a mais forte das feras, como está escrito: ‘O leão, o mais bravo dos animais, que não recua diante de nada’ (Pr 30, 30). A águia voa para as alturas, e sem piscar dirige seus olhos aos raios do sol. Assim, todo o que é perfeito na inteligência é homem. E quando mortifica a si mesmo e a concupiscência deste mundo é bezerro. É leão porque, por sua própria e espontânea mortificação, tem a fortaleza da segurança contra todas adversidades, como está escrito: ‘O justo sente-se seguro e sem medo como um leão’ (Pr 28, 1). É águia porque contempla de forma sublime as coisas celestes e eternas. Sendo assim, qualquer justo é verdadeiramente constituído homem pela razão, bezerro pelo sacrifício de sua mortificação, leão pela segurança da fortaleza, águia pela contemplação. Assim, através destes santos animais, se pode simbolizar cada um dos perfeitos.” [5]
Agradeçamos a Deus pelo envio de Seu Verbo, manifestado a nós pelo dom de um “Evangelho quadriforme”, como diz Santo Irineu de Lião, lembrando sempre que nenhum livro é capaz de conter Jesus Cristo [6].
Referências

1.  Ap 4, 7-8
2.  Ez 1, 5.10. Trata-se de uma visão provavelmente influenciada pela cultura assíria – lembrar que, nessa época, o povo de Deus estava exilado na Síria –, que tinha o Lamassu, um touro com cabeça de homem, patas de leão e asas de águia, como divindade protetora.
3.  Contra as Heresias, 3.11.8
4.  O Consenso dos Evangelistas, 1.6.9
5.  São Gregório Magno, Homilia sobre Ezequiel, 4.1-2
6.  Cf. Jo 20, 30-31

fonte: https://padrepauloricardo.org/episodios/de-onde-vieram-os-quatro-simbolos-dos-evangelhos?utm_content=buffer22ea3&utm_medium=social&utm_source=facebook.com&utm_campaign=buffer

terça-feira, 15 de julho de 2014

Cafeeiro - da flor ao fruto maduro

Este pé de café está plantado no jardim de minha casa, a semente eu trouxe da Fazenda Monte Belo, Colina SP, no ano de 1976. Essa semente foi da primeira colheita de uma lavoura que o sr. João Ademar havia plantado bem ao lado do Grupo Escolar do Monte Belo. Este cafeeiro está produzindo ja a mais de trinta anos. Eu já podei, e também já cortei três ou quatro vezes; sempre que fica alto e feio eu corto e ele brota, formando novamente um pé robusto e formoso e produz bastante.
café abotoado 
café florido
 café grãos pequenos
café grãos bem granados
 frutos em maturação
 grãos em cereja
frutos maduros - fazer a colheita 
 estendido no terreiro
café em processo de secagem
café seco

Liturgia




A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA E A CELEBRAÇÃO DA SANTA MISSA



Neste artigo abordaremos, sob alguns poucos aspectos, a Renovação Carismática em face da Renovação Litúrgica do Concílio Vaticano II com desejo de lançar uma maior luz sobre algumas questões práticas tais como musicalidade, gestos, palmas, abordando, até, a questão das manifestações carismáticas e as “Missas de Cura e Libertação”. Boa leitura.

O início da Renovação Carismática e a Renovação Litúrgica do Concílio Vaticano II

Em seu livro Renovación en el Espíritu Santo a teóloga espanhola Denise S. Brakebrough dedica todo o primeiro apartado do mesmo a falar dos antecedentes históricos da Renovação Carismática Católica¹. Três professores da Universidade de Duquesne e do Espírito Santo em Pittsburgh, Pensilvânia, foram as primeiras sementes daquele que foi o marco inicial (e não a fundação!) da Renovação Carismática Católica, tal como a conhecemos hoje. São eles: William G. Storey, Ralph Keifer e Patrick L. Bourgeois.

Finalizando o Concílio Vaticano II e impactados por seus ensinamentos, três professores leigos, de Filosofia e Teologia, membros da Universidade de Duquesne e do Espírito Santo, William G. Storey, Ralph Keifer e Patrick L. Bourgeois, que desde o outono de 1966 se reuniam com frequência em grupos de oração, pensaram em “fazer algo”. Há necessidade de mencionar-se que, durante a década dos anos sessenta, havia se produzido, nos Estados Unidos, uma onda de entusiasmo pelas vigílias bíblicas e os encontros de oração. Este era o ambiente que reinava [...] Fomentava-se a atividade litúrgica, o testemunho cristão e a ação social.

... Ditos professores começaram a pedir, em oração, que o Espírito Santo lhes concedesse essa renovação e que o vazio que sentiam fosse preenchido pelo Senhor ressuscitado. Para isso, começaram a rezar o “Vem, Espírito Santo”, da sequência que se recita na liturgia do domingo de Pentecostes. Ao mesmo tempo, esmeraram-se no estudo do Novo Testamento, especialmente as partes que detalhavam a vida da Igreja primitiva dos primeiros séculos.

William G. Storey era professor de Teologia e sua especialização era justamente a Liturgia. Segundo Storey, seu entusiasmo pela experiência que hoje se denomina Renovação era alimentado por seus estudos no que tange às origens e desenvolvimento das liturgias orientais e ocidentais e a sua triste constatação de que havia um declínio acontecendo com a nossa forma litúrgica de transmitir ao homem hodierno os mistérios celebrados e que havia, portanto, uma desesperada necessidade de uma profunda revitalização. As reformas propostas pelo Concílio Vaticano II foram motivo de enorme entusiasmo. William via que as diversas tradições cristãs (orientais e ocidentais, Católicas, Ortodoxas e protestantes) deveriam oferecer seus tesouros espirituais mutuamente (também o Frei Raniero Cantalamessa comenta num de seus artigos a respeito da capacidade de Deus de tirar algo grandioso daquilo que foi um mal – a nossa divisão – uma vez que cada tradição cristã desenvolveu algum aspecto da vida cristã com maior ênfase; a nossa unidade trará grande benefício a Igreja).

O Concílio Vaticano II nos ofereceu o Missal de Paulo VI com o único desejo de aumentar a participação do povo de Deus na celebração da Divina Liturgia. Durante muito, mas muito tempo, o povo simples e humilde (ou seja, 90% dos Latino Americanos, o que significa dizer que estamos falando da esmagadora maioria dos católicos do mundo) “assistia” a Santa Missa; conseguiam entender em que "parte" da missa o Padre se encontrava, é evidente, e tiravam proveito, quem sabe, da homilia e da comunhão eucarística. Contudo, a maioria das pessoas rezava o terço enquanto o padre “dizia a missa”. Nenhum conservador realmente honesto pode desdizer esses fatos.

Deste modo, o povo católico “ficou” com aquilo que lhe era mais tangível: os devocionais voltados aos santos, as procissões, enfim, tudo isto que forma parte daquilo que chamamos de religiosidade popular. É o Documento da V Conferencia do Episcopado Latino Americano e Caribenho – e não eu! – quem identifica este fenômeno como uma das causas principais do “desmoronamento” da fé católica, com o consequente crescimento das seitas (pois o povo tem sede do conhecimento de Deus).

O Missal de Paulo VI e suas mudanças, contudo, “mudaram” essa realidade? Trouxeram o povo católico a um maior entendimento dos mistérios celebrados na "Divina Liturgia"? Será que o povo não está mergulhado numa religiosidade meramente popular – ainda – e o crescimento das seitas não está cada vez mais em ascensão?

O Papa Emérito Bento XVI, na última catequese, falou-nos sobre a renovação litúrgica do Concílio Vaticano II (e o ambiente de entusiasmo que havia sobre isto). Dizia o Papa que não bastava traduzir a missa e disponibilizá-la na língua materna de cada nação; tão pouco bastava inserir participações do povo, ou “virar” o altar. Fazia-se (e ainda se faz) necessária uma profunda evangelização, uma profunda catequese!

Muito bem! Agora... Também é fato que a catequese necessita ser antecedida peloanúncio, pelo Kerygma, capaz de levar o fiel a uma experiência pessoal, íntima e transformadora com Jesus Cristo (o Encontro Com Cristo, tão mencionado pelo Documento de Aparecida).

Chegamos ao ponto de intersecção entre a Renovação Litúrgica e a Renovação Carismática Católica. Por meio da experiência denominada nos estatutos do ICCRS (International Catholic Charismatic Renewal Services), aprovados pela Santa Sé, deBatismo no Espírito Santo, o fiel encontra um caminho esplêndido uma experiência pessoal com Jesus Cristo. A pregação do Evangelho sob o “poder do Espírito Santo” – expressão utilizada pelo Apóstolo São Paulo para denominar as manifestações carismáticas – promove esta experiência que leva o fiel a uma sede profunda das fontes de vida espiritual que, por nossa catolicidade, são os sacramentos, a leitura da Palavra, a Oração, etc.

Neste sentido, o Batismo no Espírito Santo abre o coração do fiel para a Catequese, o que lhe permitirá uma participação mais vívida e eficaz dos sacramentos e, sobretudo, dos divinos mistérios celebrados na Eucaristia. Aliás, este é o testemunho das primeiras comunidades cristãs recolhido nos escritos patrísticos².

A Renovação Carismática Católica e a Animação Litúrgica

A “célula básica”, o “proprium” do Movimento Carismático tem nos chamados Grupos de Oração o seu verdadeiro lar. Estes grupos são caracterizados (ou eram, pelo menos) pela liberdade no Espírito, expressa por meio de palmas, danças e muita alegria (tal qual encontramos nos Salmos). Tudo isto faz parte da expressão de louvor docarismático, e ele encontra na Sagrada Escritura fundamentações muito sólidas para assim proceder³. Outra característica sine qua non dos Grupos de Oração são asmanifestações carismáticas.

A imensa maioria dos “católicos carismáticos” relatam a seguinte experiência:

“Eu sempre fui católico; contudo, eu era desses católicos que vão a missa e 'pronto'. Depois que eu estive num Grupo de Oração da Renovação Carismática, tive um encontro pessoal com Nosso Senhor Jesus Cristo e a minha vida mudou”.

Podemos levantar várias questões:

Estas pessoas não encontraram Jesus na Eucaristia?

Não é a Eucaristia a presença real de nosso Salvador (aliás, inigualável presença)?

A causa já nos foi explicada pelo Papa Bento XVI na citação que fiz acima. Como a graça de Deus pressupõe a natureza, não basta "traduzir" a missa para que ela se torne realmente acessível ao povo. Aliás, por que será que 90% das nossas crianças que estão fazendo primeira comunhão e crisma não estão “nem aí” para a Igreja? Será que “dar catequese” a pessoas que não tiveram uma experiência com Jesus não é semelhante a – com o perdão da palavra (apesar de as palavras não serem minhas, mas de Jesus) – atirar pérolas aos porcos?

Deste modo, perceba como é quase elementar para o carismático católico mal instruído a conclusão de que ele precisa tornar a Missa o mais semelhante possível ao Grupo de Oração onde ele teve sua experiência com Jesus Cristo. Palmas, danças, gestos e orações “carismáticas” começam a ser introduzidas na Santa Missa não porque o povo seja herege; eu diria que, na maioria das vezes, as intenções são as melhores e mais belas.

Precisamos instruir a nossos irmãos, portanto, no que tange ao correto modo de celebrar a Eucaristia tendo em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus. A Santa Missa é um culto infinitamente superior ao que prestamos a Deus em nossos Grupos de Oração. Em realidade, na Santa Missa é o Sumo e Eterno Sacerdote, Jesus Cristo, quem age por nós e a nosso favor. Nossas palavras e gestos são um memorial, um Rito.

Deus fez uma série de Alianças com o homem. Cada aliança teve um mediador, com um rito de celebração próprio e previa uma benção (no cumprimento da mesma) ou uma maldição (no descumprimento da mesma). Dentre estas Alianças, ressalto a da Páscoa dos Israelitas, quando eles imolaram e comeram o cordeiro ainda no Egito para, depois, atravessarem o mar vermelho a pé enxuto. Os israelitas receberam instruções para organizar o rito e fazer memória, reviver, ano após ano, a Aliança feita com Deus. Toda a liturgia e o ministério dos levitas nasceu neste momento. Israel, ano após ano, imolou e comeu o cordeiro dentro do rito litúrgico previsto na Lei. Nosso Senhor Jesus Cristo, Mediador da Nova e Eterna Aliança, estabeleceu, na última ceia, o Rito da Nova e Eterna Aliança pelo qual se faria memória - no sentido bíblico de "tornar atual", reviver - do cordeiro imolado e se comeria a Sua carne e se beberia o Seu sangue.

Portanto: A Santa Missa é o Rito da Nova e Eterna Aliança onde o Mistério da imolação do Cordeiro (único e suficiente) é ratificado perenemente (dia após dia), a fim de participarmos da Aliança, comendo a carne e bebendo o sangue do Cordeiro, que se dá na Eucaristia. Neste Rito, Jesus Cristo é quemage a nosso favor. É nosso sábado onde todo o trabalho humano deve cessar (leia Jesus de Nazaré, do Papa Emérito Bento XVI, especialmente sobre a questão da Sábado)... É Deus quem trabalha. A Igreja recolheu a herança dos Apóstolos e seus sucessores nos manuais litúrgicos, a fim de que façamos cada gesto de acordo com o espírito do Rito, prescrito nos mesmos, porque a nós cabe, na Celebração Eucarística, "descansar". É, repito, o nosso Sábado. Aquilo que nós podemos fazer, os nossos esforços... Cessam, revelam-se incapazes diante da obra que só Deus mesmo pode fazer. Repetimos palavras e gestos na certeza de que é o Espírito Santo quem estará nos fazendo partícipes da única e irrepetível Eucaristia celebrada pelo Senhor Jesus, consumada na cruz e perpetuada através do séculos por meio da Igreja.

Rito é rito! Não se preocupe em inventar... É o seu sábado. Quem trabalha é Deus. Basta viver a liturgia e beber da graça. Isto não significa que sou adepto do rigorismo e fundamentalismo litúrgicos que caracterizam correntes teológicas tradicionalistas (que, praticamente, consideram tudo o que veio do Concílio Vaticano II em termos de liturgia como sendo "de segunda categoria"). Perceba que, a respeito da Sagrada Escritura, Jesus disse claramente que nada, nem sequer uma letra, deveria ser retirada ou acrescentada da lei. Isto, contudo, não o guiou a uma observância fundamentalista da lei ao estilo "sola scriptura". O período patrístico também se caracterizou por esta luta contra o fundamentalismo bíblico. Da mesma forma, fidelidade à letra e ao Espírito dos manuais litúrgicos não significa, em absoluto, rigorismo. A história da Igreja nos mostra como, ao longo dos séculos, as diversas culturas influenciaram a liturgia (o que originou os diversos ritos existentes).Portanto, a questão é a seguinte: Qualquer coisa que "retire" ou "tente imprimir um significado diferente e novo" que não condiga com a tradição da Igreja deve ser abolido. Nem todo "adendo" está "retirando" ou "imprimindo um significado diferente e novo", e é por isto que muitos deles foram incorporados aos diversos ritos existentes. Respeito ao sentido litúrgico: Este é o critério.

O Apóstolo São João narra, no Apocalipse, que viu o céu aberto. “De-velar”, “tirar o véu” é o que significa a palavra Apocalipse. Parusia, no grego, antes de significar a segunda vinda, tem o sentido de “presença”. Na visão do Apocalipse, São João vê o que,a partir de agora, se tornou realidade espiritual: Homens e anjos unidos numa única liturgia de adoração e louvor ao Cordeiro que está imolado (possui as marcas dos pregos) mas, ao contrário do que aconteceu no Calvário, está vivo e é Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. No Apocalipse nós vemos o templo, sacerdotes paramentados, candelabros, cantos, incenso, momentos de silêncio, santos, anjos, a Virgem Maria, etc. Em qual outro culto cristão encontramos estes elementos que não seja na Divina Liturgia? O Apocalipse é, portanto, o verdadeiro inspirador dos nossos manuais de liturgia 4.

O Doutor Scott Hahn, autor do Livro "O Banquete do Cordeiro" demonstra como a Missa é a chave de entendimento do Apocalipse e como o Apocalipse é a chave de entendimento da Missa. De fato, quando vamos a Missa, o "Apocalipse" está diante de nossos olhos, já acontecendo, em mistério, até que se dê definitivamente na segunda vinda de Cristo.

Diante do Trono e do Cordeiro nós vemos a dimensão sacrifical, dolorosa, e também festiva, vitoriosa da Santa Missa. Dimensão sacrifical e dolorosa não quer dizer "velório" assim como dimensão festiva e vitoriosa não quer dizer "carnaval".

Aplicações Práticas

Colocarei orientações práticas para duas situações: A Santa Missa na Comunidade Paroquial (ou em qualquer outro lugar, sendo celebrada a uma comunidade aberta) e a Santa Missa celebrada em situações onde todos os participantes são carismáticos(especialmente os nossos Encontros propriamente carismáticos).

Sabemos que a Igreja falou, ao longo dos séculos, ao coração de cada uma das diversas culturas e povos, tendo a capacidade de se adaptar, recolhendo aquilo que era bom, rechaçando aquilo que era mal, sem permitir, de forma alguma, que este processo viesse em detrimento dos mistérios celebrados. É este o motivo pelo qual existem uma série de ritos diferentes para se celebrar a missa (nós estamos acostumados, no ocidente, ao Rito Romano). Ao mesmo tempo, a Santa Missa é o momento no qual toda a família de Deus (não obstante seu movimento, comunidade ou pastoral) celebra, unida junto ao Sumo e Eterno Sacerdote, Jesus Cristo, a Nova Aliança. É imprescindível que, para conservar a noção de rito e guardar a unidade entre todos os participantes, se observe as prescrições dos manuais litúrgicos, como já explicamos acima.

Levantar as Mãos e Bater Palmas na Santa Missa:

“Bater palmas” e levantar as mãos na Santa Missa é algo que fere a liturgia? Depende. Estamos celebrando ao Banquete Nupcial do Cordeiro, que está imolado, mas está vivo, ressuscitado e poderoso, é verdade. Ao mesmo tempo, trata-se de fazer memória do seu sacrifício de Cruz. As duas dimensões, festiva e sacrifical, estão presentes na Divina Liturgia. Há momentos nos quais a liturgia nos pede mais ênfase na dimensão sacrifical (quaresma e advento) e momentos nos quais nos pede maior ênfase na dimensão festiva (páscoa e natal). Num momento, suprimem-se o “canto do glória” (advento); na quaresma, além do canto do glória, suprime-se o “Aleluia”. Na Páscoa abundam as exclamações de glória e Aleluia. No período do Natal há, também, toda uma ênfase festiva.

Respeitando períodos litúrgicos e os momentos do próprio Rito da Missa, não vejo como desrespeitoso que, num cântico como o glória, as pessoas possam devotamente levantar as mãos ou, até, aplaudir. Quem sabe até na procissão de entrada e na Aclamação ao Evangelho também se poderia, levando em conta os critérios acima mencionados (a ênfase do tempo litúrgico e o momento do Rito), levantar as mãos e aplaudir. Contudo, a partir do início da Liturgia Eucarística (o ofertório) não vejo fundamentações para que se batam palmas na Celebração Eucarística (estou aberto para as mesmas). No canto do “Santo” se poderia, quando muito, levantar as mãos num profundo sentimento de adoração (o que é diferente de levantar as mãos “abanando-as” ou “movimentando-as de um lado para o outro”).

Perceba que os tempos e momentos geram alguns “sentimentos”, que acompanham o sentido da ação litúrgica. É necessário respeitar isto, tendo em nós os mesmo sentimentos de Cristo. Se este gesto, em algum momento, deturpa o sentido daquele momento litúrgico... Deve ser retirado. Agora, se corrobora... Não há porque agir com rigorismo ao estilo "sola scriptura".

Instrumentos Musicais e Postura das Vozes

O instrumento preferido para a liturgia é o órgão. O canto próprio da liturgia é oGregoriano. As instruções dadas pelo Santo Padre pedem que, ao poucos, tenhamos coragem de ir reintroduzindo algumas partes da Santa Missa em canto Gregoriano (o Kyrie, o Gloria, o Sanctus, o Pater Noster, o Agnus Dei). Vi isto acontecer nas paróquias do Estados Unidos, e é muito bonito.

Temos percebido que alguns instrumentos já fazem parte da cultura musical dos povos. Qual é o critério de utilização dos mesmos? O sentido litúrgico. "Solos" de guitarra e de bateria não combinam com a Santa Missa em hipótese alguma, para citar um exemplo. Vozes gritando como se estivem no “The Voice Brasil” também destoam totalmente do sentido litúrgico. Portanto, a utilização dos instrumentos e a postura da voz deve ser amena, com ênfase no sentido do que se canta (mais que na performance artística dos músicos).

Manifestações e Orações Carismáticas

Em "missa aberta", onde pessoas de outras realidades eclesiais estão presentes, o critério será sempre não. O Apóstolo São Paulo deixou recomendações claras em I Cor 14 sobre o uso dos carismas na Assembleia. Dar vazão a uma manifestação carismática num ambiente de pessoas que desconhecem a mesma... É no mínimo temerário.

Nas missas onde todos os presentes são "carismáticos", há alguns momentos nos quais encontramos espaços adequados para a oração carismática. No momento das preces, por exemplo, vi como Dom Alberto Taveira conduz a Assembleia em oração intercessória pela Igreja e a oração em línguas se dá de forma simples e harmônica. No “Credo” existe a possibilidade de ser fazer a renúncia do mal e a profissão de fé, de modo que o carisma de libertação encontra um espaço propício. Na ação de graças o fiel pode, muito bem, orar em línguas no seu interior e, depois do espaço de silêncio, se toda a Assembleia fizer um momento de adoração (como é comum), pode-se muito bem estar abertos para a oração em línguas como expressão de adoração.

O critério será sempre o sentido litúrgico de cada momento.

Missas de Cura e Libertação

Há uma grande polêmica sobre as ditas missas de Cura e Libertação. “Toda a Missa é de cura e libertação”, dizem. Ora, todo o domingo é devotado à Santíssima Trindade, o que não impede de termos a festa da Santíssima Trindade num domingo específico. Parece cômico, mas já ouvi muitos sacerdotes criticando as missas de cura e libertação sendo que os mesmos já celebraram (e ainda celebram) Missas Afro.

A Missa é sempre a Celebração da Nova e Eterna Aliança. Ela pode, contudo, ser votiva a algum propósito específico (aos enfermos e doentes, por exemplo). Neste sentido, a Missa pode ser SIM celebrada com a intenção especial de súplicas a Deus pela cura e libertação de seu povo (aliás, cura e libertação são características marcantes do ministério de Jesus Cristo; já as missas afro...).

Este simples artigo não possui nenhum caráter oficial. São reflexões de um simples católico.

Finalizando

Convido meus irmãos da Renovação Carismática Católica a um verdadeiro esforço teológico que, respeitando a nossa essencial (e não acidental e periférica) expressão de louvor e adoração, bem como nossa essencial abertura às manifestações carismáticas, sejam contempladas e acolhidas dentro do sentido litúrgico, levando em conta a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição.

Percebo Movimentos como o Caminho Neocatecumenal se esforçando neste sentido. Que o tradicionalismo (que está invadindo realidades carismáticas neste tempo) não venha a ferir aquilo que, por mais de quarenta anos, temos vivido.
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1. Os primeiros trechos do livro de Denise K. Brakebrough foram traduzidos por mim e estão disponíveis no meu blog http://sobrearochadepedro.blogspot.com.br

2. Veja o Documento Conclusivo do Diálogo entre Católicos e Pentecostais Clássicos sob a tutela do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos. Link para o documento: http://www.cnbb.org.br/publicacoes/edicoes-cnbb/4974-tornar-se-cristao-inspiracoes-da-escritura-e-dos-textos-da-patristica-com-algumas-refl-exoes-contemporaneas-vol-2

3. Veja este artigo sobre as fundamentações para o louvor alegre, com danças, palmas e gestos http://sobrearochadepedro.blogspot.com.br/2008/04/renovacao-carismatica-catolica.html

4. Leia o Livro do Dr. Scott Hahn intitulado "O Banquete do Cordeiro".